Um olhar sobre Svib

Texto por Kristina Bodrožić-Brnić

Enquanto escrevo este texto para vocês, queridos amigos e amantes da cultura croata, aprecio um bom chá quente e fresco de melissa, uma flor do jardim da casa. 

Minha mãe mora em Svib, o lar da nossa família Bodrožić-­Brnić, um sobrenome utilizado desde a época de meu bisavô (se não antes). Aqui na montanha, com vista para o vilarejo, avisto um local com poucos habitantes. Um dito popular daqui da região afirma que, para saber quantas pessoas moram em Svib, basta contar o número de chaminés. Isso não é mais uma verdade, visto que nem todas as 300 casas com chaminé estão habitadas. Jovens não se veem, crianças jamais.

O dia tradicional começa cedo, com a primeira chamada do galo, porém graças à mudança da época, não há mais galos incomodando a tranquilidade da manhã. Mesmo assim, minha avó acorda por volta das seis da manhã. Décadas de hábito não se desfazem fácil. Vendo sua rotina, me lembro da agricultura que está cada vez mais escassa aqui em Svib. As poucas pessoas que ainda plantam, fazem isso para si mesma e chegam até a praticar a troca com vizinhos e outros membros da comunidade. Uma atitude tradicional, infelizmente sustentada apenas por nossos idosos.

Já a geração da minha mãe foi embora na década dos 1970 e 1980, migrando para países como Áustria, Alemanha e Suécia. Alguns foram mais longe, como Austrália e Estados Unidos. Era normal voltar para aproveitar as quatro semanas de férias de verão e visitar as suas famílias. Por outro lado, quem pode, hoje em dia nesse mundo modernizado, dedicar todo esse tempo ao descanso e quem ainda tem dinheiro poupado para fazer isso?

O sonho de viver fora virou uma necessidade que se tornou uma dependência e uma depressão cotidiana atingiu muitos deles.

Os croatas da minha geração que não tiveram a oportunidade de se mudar para o exterior foram para cidades próximas como Makarska, Omiš e Split. Nessas regiões, as oportunidades de emprego e as condições de viver são um pouco melhor. 

Aqui sobraram os velhos. Uma placa na rua avisa do perigo de aposentados cruzarem a rua. Em cidades essas placas geralmente alertam para crianças circulando para chegar à escola. Pelo movimento nas ruas durante o dia fica difícil saber se é uma segunda-feira ou um domingo. É tudo calmo.

Mas para quem não foi embora e ficou nas montanhas, a natureza não permite tristeza. A primavera chegou e flores selvagens decoram as trilhas de pedra. Borboletas azuis, amarelas e laranjas voam e o zumbir das abelhas acompanha o cochilo da tarde. Zum zum zummmm!

Assim, de manhã não tenho como não abrir meu pulmão, meu coração e meus olhos para viver esta riqueza da terra que Deus, com certeza, beijou quando criou. Ao mesmo tempo, é impossível não invejar, mesmo com tudo que falta em termos de conforto moderno, as pessoas que sobraram aqui.

SVIB U MOM OKU!

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